Quando a natureza não avisa

23 Setembro 2026

Há acontecimentos que começam como notícia e acabam como aviso.

Recentemente, no coração dos Himalaias, a montanha desabou. Um colapso glaciar desencadeou uma torrente de água, gelo, rocha e lama que percorreu vales, destruiu infraestruturas e arrastou comunidades inteiras. No momento em que escrevo, são já quase 1000 as vidas perdidas e milhares de pessoas que continuam desaparecidas. As operações de busca e salvamento prosseguem, condicionadas pelo terreno, pelo mau tempo e pelo risco de novos deslizamentos.

À distância, parece-nos impossível. Quase irreal.

Mas talvez seja precisamente essa a primeira lição das catástrofes. Aquilo que parece impossível é, muitas vezes, apenas aquilo para que ainda não imaginámos estar preparados.

Portugal está longe dos Himalaias. Porto de Mós está ainda mais longe. Não temos glaciares a desabar sobre vales, mas temos incêndios rurais, tempestades, inundações, derrocadas, ondas de calor e outros fenómenos capazes de, em poucas horas, transformar aquilo que conhecemos como normalidade.

E quando acontece, há uma palavra que deixa de ser conceito e passa a ser necessidade, ou seja, resposta. Resposta não é apenas enviar bombeiros. É comandar, comunicar, evacuar, socorrer, procurar, transportar, alimentar, proteger, abrir acessos e manter uma comunidade informada quando tudo à sua volta parece ter deixado de funcionar.

É também ter pessoas. Podemos ter tecnologia, equipamentos modernos e planos cuidadosamente elaborados. Mas, quando chega o momento de entrar num edifício, percorrer uma estrada destruída, procurar alguém entre escombros ou chegar onde já ninguém consegue chegar, continuamos a depender de pessoas.

Talvez continuemos a preparar-nos demasiado para aquilo que já aconteceu e demasiado pouco para aquilo que ainda não conseguimos imaginar. A proteção civil não pode começar depois da catástrofe. Não pode depender apenas da capacidade extraordinária de quem, tantas vezes, já está cansado. Nem da esperança de que amanhã não aconteça.

O Nepal está longe. As imagens parecem pertencer a outro mundo. Mas deixam-nos uma pergunta que não conhece fronteiras:

E se fosse aqui?

Talvez não saibamos quando chegará a próxima grande emergência. Talvez nem consigamos prever a sua forma. Mas sabemos que, quando a natureza decidir testar uma comunidade, já não haverá tempo para começar a preparar a resposta.

É preciso tê-la preparado antes.